Coluna: Cárcere ou Porque as Mulheres viram Búfalos
A resiliência das Mulheres, a sobrevivência, o encarceramento, e o racismo estrutural.
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A atriz Dalma Régia em cena, em Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos. Foto: Tiago Alexandre |
Não é de hoje que a Cia de Teatro de Heliópolis, traz trabalhos potentes para o público.
Cárcere, ganhou o prêmio APCA 2022, de melhor Dramaturgia. Esteve presente no Festival de Teatro de Curitiba, e também na Mirada. Ganhou dois prêmios, no 33º Prêmio Shell de Teatro de 2023: Dramaturgia, com Dione Carlos, e Música, com Alisson Amador, Amanda Abá, Denise Oliveira, e Jennifer Cardoso, pelo Juri de São Paulo
O texto brilhante de Dione Carlos e a direção de Miguel Rocha, Nos leva a um universo devastador e cruel de uma sociedade racista e que tem uma mentalidade escravista.
A peça conta a História de duas irmãs gêmeas, Maria dos Prazeres (Dalma Régia) e Maria das Dores (Jucimara Canteiro), elas tem como o destino, conviverem com a tragédia do encarceramento, primeiro, do Pai delas, depois, o marido de Maria dos Prazeres, e o Filho de Maria das Dores, preso de uma forma injusta. Há um ciclo ininterrupto reunindo o passado, presente e um futuro incerto, dessas duas mulheres, como se fosse uma sina, que não há como fugir. Mas, ao mesmo tempo elas carregam as vestes de duas grandes guerreiras com suas lanças , como deusas que remetem a mitologia grega, que encaram a vida com a força de uma tempestade, Como duas orixás poderosas, Yansã e Yemanjá, a mãe e a guerreira, existe um canto de amor e, acalanto, há algo de poético e de acolhimento entre elas.
Na verdade a Necropolítica no Brasil, tem como alvo, os pretos, favelados, e pobres, sempre baseado nas relações de classes, gênero e raças. Uma consequência que reverbera desde o passado, onde a escravidão, é uma mancha, e no atual presente não tem como esquecer.
Há uma espécie de prazer doentio, do poder politico e social em subjugá-los. Através de exclusões, e extrema violência. Determinando quem deve viver ou morrer. Sem Direitos e até mesmo de afetos.
Como se a humanidade na nossa sociedade não estivesse mais presente. Ou fosse uma empatia seletiva.
Achille Mbembe, criou o termo necropolítica , ele que é um grande estudioso sobre a escravidão, e a descolonização, escreveu em seu livro, Necropolítica, inspirado em Michel Foucault, sobre o corpo matável, e da existência de mundos da morte, com o objetivo de fazer que uma parte da população seja submetida a todo tipo de ações para serem dizimados.
No espetáculo, necropoliticamente falando, há uma grande teia, onde a população preta está destinada ao calvário. Onde não existe um Deus ex machina, que desce de uma grua para salvar, como na tragédia grega . Não existem anjos...Todos estão condenados.
O Estado deveria estabelecer limites ,usar o poder para proteger a todos.
Todos estão encarcerados. As duas irmãs precisam sobreviver a tudo isso, e não há tempo para chorarem, porque há muito o que fazer.Existe um processo de resiliência entre elas.
O poder mítico da orixá Iansã, com a cabeça de búfalo, evocando toda a ancestralidade da matriz africana, onde os tambores nos levam a estar ali , presentes , em conexão com ela ,com a mãe, a oyá, a guerreira ...” Oyá é a poderosa que vive no vento, a tempestade que vence, pois quando as forças acabam, Iansã faz renascer”.
Destaque para Dalma Régia, que é uma atriz extraordinária, forte e intensa, interpretando Maria dos Prazeres, ela dança com sua Iansã, evocando todo o poder, a força e a leveza da mãe guerreira ao som dos tambores. O momento em que Isabelle Rocha, se transforma na mulher búfalo é mítico, reverbera algo de ritualístico, transformando em um rito de passagem.
A musicalidade e as corporalidades do elenco é algo catártico .Transforma tudo em magia, nos leva para dentro da cena, há poesia, leveza, doçura, força.
Os tambores evocam nossas almas, não é só de morte, é de vida, de sonhos, de estar aqui, no presente , no agora.
Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos, nos leva para um mundo que muitos não se importam ou não tem a noção que existe, como se existissem dois mundos, e entre esses dois mundos há um muro que os separam, não visíveis aos nossos olhos, mas, intransponíveis para aqueles quem não querem enxergar.
O texto de Dione Carlos, evoca o Poder da ancestralidade, colocando a Cia de Teatro de Heliópolis em um patamar que merece ser reverenciado e aplaudido.
Há uma cegueira coletiva, que emerge da alma de uma sociedade hipócrita e corrosiva.
Na verdade o Inferno de Dante é aqui !!
Eu já assisti Cárcere, inúmeras vezes, e cada vez que me conecto com o espetáculo, passo por novos aprendizados.
A próxima apresentação de Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos, será na Virada Cultural de São Paulo, dia 27 de maio de 2023, no Centro Cultural São Paulo, às 21 horas, Gratuito. Imperdível !!
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Cia de Teatro de Heliópolis |
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Heliópolis / Fonte: Uol |
Tem uma citação na página da Cia de Teatro de Heliópolis, que jamais vai sair da minha cabeça.
“ E só é justo cantar quando o nosso canto arrasta consigo , as pessoas e as coisas que não tem voz “ Ferreira Gullar- Poeta.
É exatamente isso, o teatro é de todos, e não somente de uma determinado bairro, ou classe social.
A companhia surgiu em 2000, quando reuniu jovens da comunidade, com a direção de Miguel Rocha, e o apoio da UNAS, União de Núcleo e associações, de moradores de Heliópolis e região.
Então, montaram a peça, Queda para o alto, baseado no romance de Sandra Mara Herzer.
A partir desse disparador a Cia, nunca mais parou, são vinte anos de existência.
Em sua sede, numa das maiores favelas da Cidade de São Paulo, Heliópolis, está no coração do bairro do Ipiranga, Rua Silva Bueno, na Casa de Teatro Maria José de Carvalho.
Com trabalhos maravilhosos : Corações de Vidro, Os meninos do Brasil, O dia em que Túlio descobriu a África, Nordeste/ Heliópolis/ Brasil – Primeiro Ato, Um Lugar ao sol, Eu quero sexo...Será que vai rolar ?
O Núcleo atual é formado por, Dalma Régia, David Guimarães, Donizetti Bonfim dos Santos, Klaviany Costa, e o Diretor da Cia, Miguel da Rocha. Todos moram na comunidade.
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O Dia que Túlio Descobriu a África / Cia de Heliópolis |
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Um Lugar ao Sol / Cia de Heliópolis |
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Queda para o Alto / Cia de Heliópolis |
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Nordeste Heliópolis Brasil / Cia de Heliópolis |
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Medo / Cia de Heliópolis |
DIONE CARLOS
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Dione Carlos, a dramaturga de "Cárcere ou Porque as Mulheres viram Búfalos" |
Eu sou admiradora da Dione Carlos, sua Dramaturgia é pulsante, e inspiradora. A menina de Quintino, bairro da Cidade do Rio de Janeiro, ganhou o Mundo, com sua Dramaturgia.
Ela estudou jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo, dramaturga, roteirista e Curadora.
Trabalhou como atriz, na Cia do ator, Renato Borghi.
Formou-se em Dramaturgia, na SP Escola de Teatro. Autora do livro: Dramaturgias do Front, além das coletâneas: Dramaturgia negra, da Funarte, e Negras Insurgências.
Foi orientadora do Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André.
Sua ancestralidade está na sua Dramaturgia, ela tem o dom de encantar e reverberar, com seus textos.
Os Prêmios que recebeu, como Dramaturga, por, Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos, APCA de 2022 e o Shell de 2023, coroaram seus trabalhos, são louros que não caíram do céu.
Não é fácil ser Dramaturga, Escritora, viver do Teatro, e da Cultura em nosso País.
E agora nesse atual momento em que o Sesc poderá perder 5% de seus recursos. A resiliência dos trabalhadores da Cultura se faz mais do que necessária, é importante continuarmos.
E tê-la como inspiração é um ponto de partida para buscarmos sonhos, e lutar, há sempre esperança de que o Teatro, a Dramaturgia, a Cultura transformam pessoas, o mundo, os jovens pobres da periferia, do subúrbio, de todos os lugares.Podem sim, conquistar seus objetivos, seus propósitos de vida.
Você, Dione, tem razão quando disse que, somos uma mátria, um País de mulheres búfalas " !!
A Guerreira de Quintino Venceu !!!
Suas Obras mais importantes no teatro : Baguá; Mátria; Sete; Thadeu Perone; Oriki; Sereias, Onã, Bonita, Mamute; Baquaqua, Kaim, Ialodês, Black Brecht, e se Brecht fosse negro?, Revoltar, Narrativas em disputa- Sertanias- Mulungu,Nigoma vem- do ouro ao nióbio, Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos.
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As atrizes Priscila Modesto, Jucimara Canteiro e Dalma Régia, em, Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos / Mirada Sesc / Rick Barnerschi |

Atriz, Performer, Dramaturga e Roteirista. Estudou interpretação Teatral(Unirio). Graduada em Produção Audiovisual(ESAMC). Apenas uma Artista que vende sonhos em dias cinzentos. E quando os dias não forem tão trevosos, ainda assim continuarei a vender meus sonhos!! Cores, abraços, afetos, lua em aquário... |
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